Tudo sobre o Oscar: saiba mais sobre a maior premiação do cinema

Conheça como surgiu, como acontece a votação, as controvérsias e também a presença brasileira na história do evento

Tudo sobre o Oscar no Criticópolis

Todo ano, a Temporada de Premiações culmina com o Academy Awards, considerado não apenas como o prêmio máximo do cinema, mas também uma grande celebração à Sétima Arte (principalmente no que diz respeito aos EUA).

Em seus quase 100 anos de história, o evento passou por inúmeras mudanças e modificações, além de servir de palco para momentos gloriosos, constrangedores e bizarros, incluindo vencedores errados e tretas abertas entre grandes estrelas de Hollywood.

Confira abaixo as origens do Academy Awards, quem é responsável pelas indicações, e o histórico do Brasil na premiação.

A origem do Academy Awards

(Créditos: Academy of Motion Picture Arts and Sciences/Reprodução)

Apesar do Oscar se apresentar como uma grande celebração ao mundo do cinema, o evento em si surgiu devido a motivações bem mais cínicas: antissindicalismo. Nos anos 1920, um dos homens mais poderosos de Hollywood, o produtor Louis B. Mayer — o último “M” da sigla MGM — começou a se preocupar com a possibilidade de atores, diretores e outros profissionais da indústria cinematográfica formarem seus próprios sindicatos e guildas em busca de maiores direitos trabalhistas.

Mayer, visando criar sua própria organização para cuidar de possíveis disputas laborais, reuniu 36 outros figurões de Hollywood em janeiro de 1927 para um banquete no prestigioso Ambassador Hotel, em Los Angeles. Lá, eles fundaram a International Academy of Motion Pictures Arts and Sciences, que logo removeu o “International” do nome. Em português, ela é conhecida como Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

Para atrair mais pessoas para se juntar à Academia (e não se envolver em qualquer tipo de sindicato), Mayer e o restante da chefia do órgão pensaram em vários incentivos para seus membros. E, entre eles, estava a ideia de uma premiação especial.

“Eu descobri que a melhor forma de lidar com [cineastas] era enchê-los de medalhas”, teria dito Mayer mais tarde, de acordo com uma de suas biografias. “Se lhes desse taças e prêmios, eles se matariam para produzir o que eu queria. Foi por isso que o Academy Awards foi criado.”

(Créditos: Academy of Motion Picture Arts and Sciences/Reprodução)

A primeira edição do Academy Awards foi realizada em 16 de maio de 1929 no Hollywood Roosevelt Hotel, em Los Angeles. Longe do evento cheio de pompa e várias horas de duração visto nos dias de hoje, a cerimônia original foi mais um jantar de gala do que qualquer outra coisa, já que a premiação em si durou 15 minutos e todo mundo já sabia quem tinha ganhado cada categoria, porque os vencedores foram divulgados meses antes do evento.

Um dos elementos mais curiosos é que essa primeira edição tinha duas categorias que poderiam se enquadrar em “Melhor Filme”: 

  • Outstanding Picture (“Filme Extraordinário”, em tradução livre): voltado para produções cinematográficas com aspectos técnicos mais ambiciosos.
  • Best Unique and Artistic Picture (“Melhor Filme Único e Artístico”): criado para filmes com menor orçamento e escopo, com ênfase na visão artística dos cineastas.

Quem venceu o prêmio Outstanding Picture foi Asas, o épico de combate aéreo na Primeira Guerra Mundial. Já Best Unique and Artistic Picture ficou com Aurora, primeiro filme hollywoodiano do diretor alemão F. W. Murnau, de Nosferatu (1922).

A partir da segunda edição, a Academia desistiu do prêmio de filme artístico, não anunciou os vencedores com antecedência, e passou a transmitir a premiação por rádio, estabelecendo o formato que só cresceria nas décadas seguintes.

No fim, o plano de Meyer de impedir os profissionais de Hollywood de formarem seus próprios sindicatos deu errado, especialmente após a Grande Depressão de 1929 causar um colapso econômico global. Mas a Academia seguiu como uma das maiores instituições do cinema nos Estados Unidos e no restante do mundo.

Como surgiu a estatueta do Oscar — e de onde veio seu nome?

(Créditos: Al-Seib/Academy of Motion Picture Arts and Sciences/Reprodução)

Presente desde a edição original do prêmio, a estatueta do Academy Awards, também conhecida como “Oscar”, é um dos objetos mais cobiçados por quem trabalha (ou sonha em trabalhar) na indústria do entretenimento.

Com nome oficial de Academy Award of Merit (Prêmio da Academia por Mérito), a estatueta foi elaborada por Cedric Gibbons, diretor de arte da MGM e um dos membros-fundadores da Academia, enquanto a modelagem em si ficou a cargo do conceituado escultor George Stanley

Ela retrata um cavaleiro ao estilo artístico Art Deco, posicionado em cima de um rolo de filme com cinco espaços que representam as cinco divisões originais da Academia — Atores, Diretores, Produtores, Técnicos e Roteiristas. 

(Créditos: Academy of Motion Picture Arts and Sciences/Reprodução)

Apropriadamente, graças a seu trabalho na direção de arte de vários filmes celebrados, Cedric Gibbons é um dos maiores vencedores da história do Academy Awards. Ele recebeu 11 das estatuetas que elaborou.

Desde 1929, o design passou por poucas reformulações, com apenas uma alteração no formato de sua base, e trocas no tipo de metal em que ela é esculpida. Atualmente, ela é feita de bronze maciço, recoberta por uma camada de ouro 24 quilates.

Mas por que o prêmio é conhecido como “Oscar”? A verdade é que não há um consenso sobre quem é responsável pelo apelido da estatueta, embora várias teorias e hipóteses tenham surgido com o tempo.

O registro mais antigo encontrado até hoje do uso de “Oscar” para se referir ao prêmio foi em dezembro de 1933 como parte da coluna Cinematters do jornal Los Angeles Evening Record. Essa descoberta foi feita em 2021 pelo crítico de cinema e pesquisador brasileiro Waldemar Dalenogare Neto, contradizendo declarações do colunista de Hollywood e pioneiro da fofoca moderna Sidney Skolsky, que teria dito que bolou o termo em 1934 para entregar uma matéria no prazo da publicação.

Uma teoria divertida — e pouco provável — vem da atriz Bette Davis, que escreveu em sua autobiografia que bolou o apelido em 1936 porque a bunda da estátua a lembrava do primeiro marido, Harmon Oscar Nelson. Mas, como visto acima, a data não bate com a referência mais antiga encontrada no registro histórico.

Entre as teorias, uma das mais aceitas é de que Margaret Herrick, bibliotecária e futura presidente executiva da Academia, teria bolado o apelido em 1931 pela estatueta lembrá-la de seu tio Oscar, mas há poucas provas concretas de que ela seja de fato a responsável pelo apelido.

Seja qual for a origem, o nome do prêmio ficou tão popular que a Academia o adotou oficialmente em 1939. Por isso, hoje em dia a própria divulgação da cerimônia se refere a ela como “The Oscars”.

Quem vota no Oscar?

(Créditos: Dolby Theatre/Reprodução)

Por ser uma premiação organizada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, as indicações e vencedores do Oscar são definidos pelos membros filiados à própria organização. Estima-se que ela tenha cerca de 11 a 12 mil filiados, e 10.136 são votantes para o prêmio.

Para ingressar na Academia, é necessário que seu nome seja aprovado por sua diretoria, conhecida como Conselho de Governadores, formada por 55 figuras de alto escalão da organização. Também são necessários certos pré-requisitos profissionais de cada divisão, listados no site da Academia.

Alternativamente, é possível juntar-se à instituição automaticamente ao ser indicado para alguma categoria do Oscar — o que seria o caso de Fernanda Torres e Wagner Moura, por exemplo.

Originalmente composta por cinco divisões diferentes, a Academia expandiu suas operações nas décadas seguintes, e atualmente conta com 20 divisões entre as várias carreiras e aspectos da indústria cinematográfica:

  • Atores
  • Diretores
  • Roteiristas
  • Produtores
  • Editores
  • Animadores
  • Cinematógrafos
  • Design de Produção
  • Executivos
  • Representantes Artísticos
  • Diretores de Elenco
  • Efeitos Visuais
  • Figurinistas
  • Documentaristas
  • Maquiagem e Cabeleireiros  
  • Marketing e Relações Públicas
  • Música
  • Som
  • Produção e Tecnologia
  • Curta-Metragens

Naturalmente, o maior contingente de votantes para o Academy Awards é a divisão de atores. Porém, seu número vem caindo em ritmo constante nos últimos anos: em 2023, havia 1.294 atores registrados; em 2024, ele caiu para 1.258; e em 2025 para 1.202.

Como funciona a votação do Oscar?

(Créditos: Academy of Motion Picture Arts and Sciences/Reprodução)

Para um filme tornar-se elegível para os Academy Awards, é necessário que ele tenha sido exibido entre a meia-noite dos dias 1º de janeiro e 31 de dezembro do ano anterior em circuito comercial por pelo menos sete dias consecutivos nas regiões metropolitanas das cidades estadunidenses de Los Angeles, Nova York, São Francisco, Chicago, Dallas e Atlanta.

As exceções ficam com Melhor Filme Internacional, Melhor Documentário e as categorias de curta-metragens, que possuem suas próprias regras de elegibilidade.

(Créditos: Lionsgate/Reprodução)

Produções que fizeram sua estreia no ano anterior a esse período só poderão ser indicadas caso as exibições em questão tenham sido realizadas em eventos especiais como festivais de cinema. Um exemplo é Guerra ao Terror, que fez sua estreia originalmente no Festival de Veneza de 2008, mas só foi exibido em cinemas dos EUA em 2009.

Também é necessário que os filmes tenham duração mínima de 40 minutos, e exibidos em salas de cinema com projeção em película de 35mm ou 70mm, ou em formato digital. Produções lançadas apenas em DVD/Blu-ray ou serviços de streaming, por exemplo, não são elegíveis para o Oscar — a única exceção aconteceu entre 2020 e 2021, durante o período da pandemia de COVID-19.

Para o processo de indicação, cada divisão da Academia pode votar em suas respectivas categorias — atores em prêmios de atuação, roteiristas em roteiro, diretores em direção, etc. Além disso, todos os membros da organização têm direito a participar nas votações para seleção de indicados para Melhor Filme, Melhor Filme Animado e Melhor Filme Internacional.

Durante a fase de indicações, os votos são ranqueados e o posicionamento na lista do votante tem um peso diferente na pontuação. Como o número de pessoas varia em cada divisão da Academia, o número mínimo necessário para um filme entrar em uma categoria do Oscar pode variar entre dezenas até centenas de votos.

Após a seleção e divulgação dos indicados, todos os membros ativos da Academia têm direito a votar em todas as categorias do Academy Awards. A partir da edição de 2026, a organização também passou a exigir alguma comprovação de que o votante de fato assistiu a todos os filmes de cada categoria antes de poder votar nela.

(Créditos: Academy Screening Room/Reprodução)

Essa comprovação pode ser feita por meio do Academy Screening Room, uma plataforma de streaming exclusiva para quem fizer parte da Academia, que conta com os filmes selecionados para o Oscar em seu catálogo. Alternativamente, caso tenha assistido ao filme em eventos especiais como estreias ou festivais, o votante deve preencher um formulário atestando que assistiu à produção e está apto a votar na categoria em que concorre.

Onde acontece a cerimônia do Oscar?

(Créditos: Adam Fagen/Wikimedia Commons)

Por muitas décadas, o Academy Awards foi realizado em vários locais diferentes, chegando a acontecer até simultaneamente em Los Angeles e Nova York em algumas de suas edições mais antigas.

No entanto, desde 2002, o Oscar tem uma casa própria para sua realização: o Dolby Theatre (originalmente Kodak Theatre), edifício localizado na famosa Hollywood Boulevard, em Los Angeles, e localizado no mesmo complexo de outro local icônico da cidade, o tradicional Teatro Chinês.

O auditório do Dolby Theatre foi pensado especificamente para a realização do Academy Awards, com capacidade total de 3.400 pessoas, um sistema de cabeamento complexo e posicionado especialmente para o sistema de câmeras e transmissão da cerimônia, além de sistema de som de última geração graças à parceria com a companhia Dolby Atmos.

O lobby do teatro é também dedicado à história e grandes momentos da premiação, com suas colunas marcando quais foram os vencedores do Oscar de Melhor Filme de 1929 até os dias de hoje.

(Créditos: Dolby Theatre/Reprodução)

Além do Oscar, o Dolby Theatre também é usado para shows de artistas consagrados e já serviu de palco para artistas icônicos como Prince, Celine Dion e Stevie Wonder, além de eventos como finais de reality shows populares incluindo American Idol e America’s Got Talent

Outras premiações, como o AFI Lifetime Achievement Award e o ESPY Awards, também já foram realizados no Dolby Theatre.

Conheça todas as categorias do Oscar

(Créditos: Academy of Motion Picture Arts and Sciences/Reprodução)

Ao longo da história, novas categorias foram adicionadas, removidas ou ajustadas na premiação. Muitas delas mudaram de nome — “Melhor Filme Internacional” foi conhecido por muito tempo como “Melhor Filme Estrangeiro” — e outras foram fundidas ou divididas em diferentes categorias. Atualmente, o Oscar é composto por 24 categorias principais:

CategoriaAno de introdução
Melhor Filme1929
Melhor Diretor1929
Melhor Ator1929
Melhor Atriz1929
Melhor Fotografia1929
Melhor Design de Produção1929
Melhor Roteiro Adaptado1929
Melhor Som1930
Melhor Curta-Metragem em Live-Action1932
Melhor Curta-Metragem em Animação1932
Melhor Edição1934
Melhor Trilha Sonora Original1934
Melhor Canção Original1934
Melhor Ator Coadjuvante1936
Melhor Atriz Coadjuvante1936
Melhores Efeitos Visuais1939
Melhor Roteiro Original1940
Melhor Documentário em Curta-Metragem1941
Melhor Documentário1943
Melhor Filme Internacional1947
Melhor Figurino1948
Melhor Maquiagem e Penteados1981
Melhor Filme Animado2001
Melhor Direção de Elenco2025
Melhor Direção de Dublês2027 (previsão)

Categorias descontinuadas

CategoriaAno de IntroduçãoAno final no Oscar
Melhor Produção Única e Artística19291929
Melhor Diretor — Drama19291929
Melhor Diretor — Comédia19291929
Melhores Efeitos de Engenharia19291929
Melhor Design de Títulos19291929
Melhor História Original19291956
Melhor Curta – Comédia19321935
Melhor Curta – Original19321935
Melhor Diretor Assistente19321937
Melhor Direção de Dança19351937
Oscar Juvenil (Prêmio Honorário)19351961
Melhor Curta – Colorido19361937
Melhor Curta – 1 Bobina19361956
Melhor Curta – 2 Bobinas19361956
Melhor Edição de Som19632019
Melhor Trilha Original de Musical ou Comédia19951998

Além do que está nesta lista, há diversos prêmios especiais e Oscars honorários entregues a pessoas e obras cujo legado é considerado particularmente excepcional. Essas honrarias eram feitas na própria cerimônia no Academy Awards antigamente, mas desde 2009 a Academia realiza a entrega dos prêmios em um evento separado, conhecido como Governors Awards, geralmente realizado em novembro.

Maiores Vencedores do Oscar

(Créditos: Academy of Motion Picture Arts and Sciences/Reprodução)

O indivíduo com maior número de indicações e vitórias da história do Academy Awards é ninguém menos do que Walt Disney, que recebeu 26 estatuetas entre prêmios competitivos e honorários — inclusive um póstumo em 1969 pelo curta animado Ursinho Puff e o Dia Chuvoso, lançado anos após sua morte. 

Além disso, por décadas ele também foi a única pessoa a receber o maior número de Oscars em uma única cerimônia, vencendo 4 categorias diferentes em 1954. Em 2025, Sean Baker empatou o recorde, com o diferencial de ter recebido todos os prêmios por um único filme (Anora), enquanto Disney venceu por 4 produções diferentes.

Já a mulher com mais vitórias no Oscar é Edith Head, a consagrada figurinista conhecida por trabalhos como A Malvada (1950), A Princesa e o Plebeu (1953) e Golpe de Mestre (1973). Head recebeu 8 estatuetas e 35 indicações durante sua carreira. Seu impacto cultural foi tão significativo que ela é vista como uma das inspirações para a personagem Edna Moda da animação Os Incríveis (2004)

Quanto ao recorde enquanto obra, três filmes compartilham a posição de maiores vencedores do Oscar: Ben-Hur (1959), Titanic (1997) e O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (2003), cada um com 11 prêmios ganhos. Destes, O Retorno do Rei também tem a distinção de ter vencido todas as categorias em que concorreu.

(Créditos: Studiocanal/Reprodução)

A atriz Katharine Hepburn é a recordista em prêmios de atuação, conquistando o Oscar de Melhor Atriz por 4 vezes, pelos filmes Uma Aventura na África (1951), Adivinhe Quem Vem para Jantar (1967), O Leão no Inverno (1968) e Num Lago Dourado (1981).

Curiosamente, uma dessas vitórias é na verdade um empate, já que ela recebeu o mesmo número de votos que Barbra Streisand por Funny Girl: A Garota Genial. Só que na ocasião, apenas Streisand recebeu o prêmio, já que Hepburn não costumava participar das cerimônias do Oscar.

(Créditos: Los Angeles Daily News/Wikimedia Commons)

John Ford é o maior vencedor do prêmio de direção. Ele levou 4 Oscars por O Delator (1936), As Vinhas da Ira (1941), Como Era Verde o Meu Vale (1942) e Depois do Vendaval (1953).

Controvérsias do Oscar

O Academy Awards gerou muitos escândalos e controvérsias, incluindo tretas entre celebridades, trocas de envelopes de grandes vencedores, e problemas mais sérios com questões que envolvem racismo e representatividade cultural.

Um exemplo claro dessa questão foi em 1940, quando Hattie McDaniel tornou-se a primeira pessoa afro-americana a vencer um Oscar, por seu papel como Mammy em E O Vento Levou (1939). Para além de o fato de que, mesmo na época, sua personagem ser inspirada por vários estereótipos raciais, McDaniel foi forçada a sentar em uma mesa separada dos demais por questões de segregação racial nos EUA.

Após a morte de McDaniel, em 1952, seu prêmio de atriz coadjuvante — que na época era uma placa, e não uma estatueta do Oscar — foi doado à Howard University, uma universidade tradicional de estudantes afro-americanos. Porém, nos anos 1970, ele desapareceu sob circunstâncias misteriosas, e nunca mais foi encontrado. Em 2023, a Academia substituiu o prêmio e o entregou ao departamento de artes cênicas da Howard University.

A questão envolvendo racismo estrutural ressurgiu em 1973, desta vez sob forma de protesto, quando Marlon Brando venceu o Oscar de Melhor Ator por O Poderoso Chefão. Em vez dele, quem subiu ao palco foi Sacheen Littlefeather, uma ativista pelos direitos de nativo-americanos. Durante seu discurso, ela criticou a representação desses povos no cinema e TV, e o silêncio quanto à ocupação da cidade de Wounded Knee, feita em protesto por descaso do governo estadunidense aos povos originários.

O discurso recebeu vaias e aplausos, e Littlefeather relatou que o ator John Wayne teria sido impedido de removê-la do palco. A Academia pediu desculpas pelo jeito com que ela foi tratada meses antes de sua morte, em 2022 — e, para complicar mais o legado do momento, familiares declararam que Littlefeather (nascida Maria Louise Cruz) não tinha ancestralidade nativo-americana após seu falecimento.

A edição de 1974 protagonizou um dos momentos mais inusitados do Oscar, quando do nada um homem pelado passou correndo atrás do apresentador Larry Niven e fazendo um sinal da paz. O ator britânico, conhecido por seu tom irreverente, não demorou para comentar o caso com um “não é fascinante pensar que provavelmente a única risada que esse homem vai receber na sua vida inteira será por tirar as roupas e mostrar suas limitações?”

O “peladão” em questão era Robert Opel, um fotógrafo, dono de galeria de arte e ativista da causa LGBT. Morto durante um assalto em 1979, a vida e memória de Opel foi assunto do documentário Uncle Bob (2010), dirigido por seu sobrinho e xará, Robert Oppel.

50 anos mais tarde, o acontecimento foi revisitado como piada envolvendo o anfitrião Jimmy Kimmel e John Cena, que apareceu sem roupas para apresentar o prêmio de Melhor Figurino.

Um discurso marcado por controvérsias, antes e depois da cerimônia, foi o de Vanessa Redgrave, que venceu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por Júlia em 1978. No ano anterior, a atriz também produziu e participou do documentário The Palestinian, que mostrava a luta da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) contra o governo de Israel.

Após campanhas de difamação e protestos de organizações ligadas a Israel contra Redgrave, a atriz agradeceu a membros da Academia por votar nela e não se intimidar por “arruaceiros sionistas”, o que levou a acusações de antissemitismo já dentro da própria premiação. O roteirista Paddy Chayefsky — defensor ferrenho de Israel — a criticou abertamente ao receber seu Oscar de Melhor Roteiro Original por Rede de Intrigas.

(Créditos: Variety/Reprodução)

Em 2016, os problemas de diversidade no Oscar voltaram à tona após dois anos seguidos em que os 20 indicados aos prêmios de atuação eram pessoas brancas. Isso levou a uma campanha de boicote que ficou conhecida nas redes sociais como #OscarsSoBhite (“O Oscar é tão branco”, em tradução livre), e críticas abertas de grandes figuras artísticas afro-americanas, incluindo a atriz Jada Pinkett Smith e os diretores Spike Lee (Malcolm X) e Ryan Coogler (Pantera Negra).

No momento imediato, o anfitrião Chris Rock — que havia até sido aconselhado a não participar da transmissão — fez piadas sobre os problemas de representatividade da Academia durante seu monólogo de abertura.

Nos meses e anos seguintes, a Academia implementou formas de aumentar a diversidade étnica e cultural nas suas indicações. Foi aumentado o número de integrantes da organização, indo de cerca de 6 mil em 2016 para mais de 11 mil em 2026, e também foram inseridas regras adicionais para concorrentes ao Oscar de Melhor Filme, que passaram a considerar elementos de minorias étnicas, sociais ou de gênero em suas produções.

Nos anos seguintes, houve avanços na questão de diversidade nos Oscars, com o filme sul-coreano Parasita vencendo o prêmio de Melhor Filme, Michelle Yeoh sendo a primeira asiática a conquistar o Oscar de Melhor Atriz, e Pecadores, que trata de racialidade, se tornando o filme com maior número de indicações da história da premiação.

Porém, mesmo com a adição de minorias em seus quadros, a Academia ainda segue predominantemente composta por homens brancos. Curiosamente, duas das figuras citadas por aqui, Jada Pinkett Smith e Chris Rock, seriam figuras centrais de outra controvérsia do Oscar anos mais tarde. 

O Oscar de 2017 foi marcado por uma das maiores trapalhadas que já aconteceu na história da cerimônia: o prêmio de Melhor Filme foi anunciado para o vencedor errado.

Na entrega do grande prêmio da noite, os atores Faye Dunaway e Warren Beatty anunciaram (com certa hesitação) que La La Land: Cantando Estações era o vencedor. Os produtores e elenco do filme subiram ao palco e estavam no meio de seus discursos quando descobriram que, na verdade, eles haviam perdido.

Jordan Horowitz, um dos produtores de La La Land, foi ao microfone e mostrou o envelope correto, que dizia que o ganhador era na verdade Moonlight: Sob a Luz do Luar. Os produtores do vencedor correto subiram ao palco, receberam suas estatuetas das mãos do pessoal de La La Land, e fizeram seus discursos antes do fim da transmissão — todos tentando desesperadamente não serem consumidos pela vergonha da situação.

Inicialmente, muitos julgaram que o culpado da situação foi Beatty, que teria pego o envelope errado nos bastidores. Mais tarde, a companhia PricewaterhouseCoopers, que é responsável por organizar a votação e entrega de envelopes do Oscar, revelou que Beatty havia recebido o envelope errado, que na verdade era uma cópia reserva do prêmio de Melhor Atriz (vencido por Emma Stone) em vez do cartão de Melhor Filme.

A PricewaterhouseCoopers pediu desculpas a todos os envolvidos, e desde então não nenhum problema do tipo voltou a ocorrer.

(Crétditos: Academy of Motion Picture Arts and Sciences/Reprodução) 

Talvez quem mais tenha se beneficiado com essa história tenha sido a atriz Marisa Tomei, já que uma das maiores lendas urbanas do Oscar até então é de que ela havia recebido por engano seu Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por seu papel em Meu Primo Vinny (1992). Como ficou provado décadas mais tarde, ela realmente venceu aquele prêmio.

Em 2022, rolou o último grande momento maluco do Oscar (por enquanto), quando Will Smith subiu no palco e deu um tapão na cara do anfitrião Chris Rock ao vivo. Isso aconteceu segundos depois do comediante fazer piada com a cabeça raspada da esposa do ator, Jada Pinkett Smith, que sofre com alopecia.

Depois de perceber que o tapa não era parte de uma esquete roteirizada, mas uma agressão de verdade, o clima na plateia (e entre os espectadores em casa) mudou bastante. Para tornar as coisas ainda mais dramáticas, horas depois Smith venceu como Melhor Ator por seu papel em King Richard: Criando Campeãs (2021) e usou seu discurso para pedir desculpas à Academia.

No dia seguinte, Smith pediu desculpas a Rock por redes sociais, e renunciou sua posição como membro da Academia. Posteriormente, ele foi banido de eventos ligados à organização por 10 anos.

O Brasil no Oscar

O Criticópolis já listou os vários filmes nacionais que concorreram ao Oscar durante as décadas, mas aqui vale expandir e lembrar de mais participações brasileiras no Academy Awards.

(Créditos: Arquivo Familiar/Reprodução)

O primeiro brasileiro a ser indicado a um Oscar foi o lendário compositor Ary Barroso, que em 1945 concorreu a Melhor Canção Original por “Rio de Janeiro”, música para o filme Brasil (1944). Barroso não levou o Oscar, mas recebeu um prêmio honorário da Academia no mesmo ano.

(Créditos: Lopert Pictures/Reprodução)

Em 1960, Orfeu Negro não só foi indicado, como conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional (na época Melhor Filme Estrangeiro). O problema é que, apesar de ser um filme que se passa no Rio de Janeiro, é em língua portuguesa e tem inspiração na obra de Vinicius de Moraes, o Oscar ficou com a França, já que a produção foi uma parceria entre França, Itália e Brasil, e tinha como diretor o francês Marcel Camus.

Poucos anos depois, em 1963, tivemos uma produção 100% nacional concorrendo ao Oscar de Filme Internacional com O Pagador de Promessas, mas os franceses levaram a melhor mais uma vez com Sempre aos Domingos, do diretor Serge Bourguignon.

(Créditos: Alvorada/Reprodução)

Em 1979, o filme Raoni, que mostra a luta do cacique pela proteção do Xingu, na Amazônia, concorreu ao prêmio de Melhor Documentário, mas o prêmio foi para Scared Straight!

(Créditos: Icarus Films/Reprodução)

Ainda falando em documentários, em 1981 a brasileira Tetê Vasconcellos tornou-se a primeira mulher brasileira indicada ao Oscar como codiretora de El Salvador: Another Vietnam. O prêmio, porém, ficou com o filme Genocide.

Já em 1986, o aclamado filme estadunidense-brasileiro O Beijo da Mulher-Aranha foi indicado a 4 Oscars, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor para o argentino-brasileiro Héctor Babenco. Entretanto, o único a ganhar um prêmio por ele foi o gringo William Hurt, vencedor do Oscar de Melhor Ator.

(Créditos: L.C. Barreto/Reprodução)

Pulando para 1996, O Quatrilho foi o primeiro de três grandes filmes nacionais a concorrer ao Oscar de Melhor Filme Internacional, que naquele ano acabou ficando com a produção holandesa A Excêntrica Família de Antônia, de Marleen Gorris.

Dois anos mais tarde foi a vez O Que É Isso, Companheiro?, produção inspirada no sequestro do Embaixador dos EUA por militantes comunistas durante a Ditadura Militar, concorrer ao prêmio. Mas os holandeses levaram a melhor de novo com Caráter, de Mike van Diem.

(Créditos: Riofilme/Reprodução)

Em 1999, Central do Brasil quebrou paradigmas ao concorrer não apenas como Melhor Filme Internacional, mas trazendo a indicação inédita de Oscar de Melhor Atriz para Fernanda Montenegro. O primeiro prêmio acabou ficando com o italiano A Vida é Bela, enquanto o segundo (e mais controverso) ficou com Gwyneth Paltrow por Shakespeare Apaixonado — superando também Cate Blanchett por Elizabeth e Meryl Streep por Um Amor Verdadeiro.

Na edição de 2001, Uma História de Futebol foi indicado para Melhor Curta-Metragem em Live-Action, mas acabou perdendo para a produção mexicana Quiero Ser

Depois de ficar de fora da categoria de Melhor Filme Internacional em 2003, Cidade de Deus fez um feito histórico ao concorrer a 4 Oscars em 2004: Melhor Diretor (Fernando Meirelles), Melhor Roteiro Adaptado (Bráulio Mantovani), Melhor Edição (Daniel Rezende) e Melhor Fotografia (César Charlone). Infelizmente, o filme — hoje considerado um dos maiores do século 21 — saiu de mãos vazias da premiação.

(Créditos: 20th Century Fox/Reprodução)

Além de Cidade de Deus, no mesmo ano o diretor brasileiro Carlos Saldanha concorreu ao Oscar de Melhor Curta-Metragem Animado por A Aventura Perdida de Scrat, derivado de A Era do Gelo estrelado pelo esquilo Scrat. O prêmio, porém, foi para Harvie Krumpet.

(Créditos: Focus Features/Reprodução)

Em 2005, Diários de Motocicleta, de Walter Salles, foi desqualificado de participar da categoria de Melhor Filme Internacional por ser uma coprodução entre Brasil, Argentina, Peru, Chile e Estados Unidos que, de acordo com a Academia, não tinha “elementos suficientes” para representar apenas um desses países

Pelo menos a produção pode ser indicado a outras categorias, e venceu o Oscar de Melhor Canção Original por “Al Otro Lado Del Río”, do uruguaio Jorge Drexler, além de concorrer a Melhor Roteiro Adaptado.

Depois de alguns anos de hiato, em 2011 o Brasil voltou ao Oscar com Lixo Extraordinário, filme sobre o artista plástico Vik Muniz, concorrendo ao Oscar de Melhor Documentário. Dessa vez, ele acabou perdendo para Trabalho Interno.

No ano seguinte, Carlinhos Brown e Sérgio Mendes foram indicados ao prêmio de Melhor Canção Original por “Real in Rio” para o filme Rio. E mesmo tendo apenas um concorrente na categoria, eles perderam para “Man or Muppet”, do filme Os Muppets.

Em 2015, um novo documentário brasileiro concorreu ao Oscar, O Sal da Terra, que fala sobre a vida e trabalho do premiado fotógrafo Sebastião Salgado. Quem venceu daquela vez, porém, foi Cidadãoquatro, focado no delator estadunidense Edward Snowden.

Após fazer sucesso em vários festivais pelo mundo, O Menino e o Mundo tornou-se a primeira animação brasileira (e latino-americana) a concorrer ao Oscar de Melhor Filme Animado, que acabou ficando com Divertida Mente, da Pixar. 

Três anos depois, Carlos Saldanha voltou a ser indicado por seu trabalho como diretor do filme animado O Touro Ferdinando, mas a Pixar levou a melhor novamente com Viva: A Vida é uma Festa.

A edição de 2020 do Oscar teve como representante brasileiro o documentário Democracia em Vertigem, de Petra Costa, sobre o impeachment de Dilma Rousseff e a ascensão de Jair Bolsonaro para a presidência do país. Quem levou o prêmio, porém, foi American Factory.

No Oscar 2022, o estadunidense-brasileiro Pedro Kos (que editou Lixo Extraordinário) codirigiu Onde Eu Moro, uma das produções indicadas ao prêmio de Melhor Documentário de Curta-Metragem. O prêmio, porém, acabou ficando com The Queen of Basketball.

Finalmente, após décadas e décadas de espera, em 2025 o Brasil conquistou seu Oscar de Melhor Filme Internacional com Ainda Estou Aqui. Também teve Fernanda Torres seguindo nos passos de sua mãe, Fernanda Montenegro, ao se tornar a segunda brasileira indicada ao Oscar de Melhor Atriz, e pela primeira vez uma produção brasileira concorreu ao Oscar de Melhor Filme. Ambas as categorias acabaram ficando com o grande vencedor da noite, que foi Anora.

(Créditos: Vitrine Filmes/Reprodução)

Em 2026, o Brasil se mostrou ainda mais presente, com quatro categorias para O Agente Secreto: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Direção de Elenco (Gabriel Domingues). Assim, ele empata com Cidade de Deus como a produção totalmente brasileira com maior número de indicações ao Oscar.

Se não bastasse isso, o brasileiro Adolpho Veloso também concorre ao prêmio de Melhor Fotografia por Sonhos de Trem.

Onde assistir a cerimônia do Oscar?

(Créditos: Martin Vorel/Wikimedia Commons)

A edição de 2026 do Academy Awards acontece em 15 de março, e no Brasil será transmitida pela Rede Globo na TV aberta, e no G1 pela internet. Este é o segundo ano consecutivo em que a cerimônia poderá ser assistida por esses canais.

Na TV por assinatura, a transmissão será feita pelo canal TNT, além da plataforma de streaming HBO Max.

Vale notar que, a partir de 2029, o Academy Awards poderá ser assistido no YouTube, graças a uma parceria entre a Academia e a gigante do mundo de vídeos online.


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Victor Ferreira

Jornalista, roteirista e ator/dublador nas horas vagas. Cobre videogames e o mundo da cultura pop desde 2013, e seria esquisito parar agora.