Cinema Brasileiro: Porque você precisa ver “Nosso Segredo” de Grace Passô

Nosso Segredo, de Grace Passô, é como um sonho. Daqueles que você não sabe se quer acordar ou continuar sonhando.

Ela conta a história de uma família negra em Belo Horizonte que compartilha um segredo do qual ninguém fala, enquanto ainda vive o luto recente pela perda do pai e marido. Apenas Tutu parece disposto a encarar aquilo que o restante da família não consegue. Seria coincidência que ele tenha o nome de Desmond Tutu, o ativista africano pela paz? O pequeno Tutu se torna a consciência emocional da família, aquele que ousa olhar para o que os outros evitam.

(Créditos: Reprodução/Berlinale)

Grace Passô encontra uma linguagem profundamente tocante, densa e poética. Assistir a esse filme é como ler um poema que você não quer que ninguém traduza. Você quer que ele permaneça exatamente como está.

A história se desenrola lentamente depois que, na cena de abertura, descobrimos que Gilson, motorista de táxi, perdeu recentemente o pai. Ele conta isso a um passageiro idoso misterioso que poderia ser seu próprio pai. Antes de sair do carro, o homem pergunta o que ele deixou para trás numa encruzilhada onde o pai um dia o esqueceu. Essa pergunta simbólica parece central ao filme. A vida nos confronta constantemente com encruzilhadas, e cada vez que atravessamos uma, nos tornamos alguém levemente diferente.

A câmera frequentemente mostra apenas fragmentos do espaço ou closes. Ao focar tão de perto nas expressões dos atores, conta histórias dentro da história. Essa escolha cria uma atmosfera intensa e densa: vemos apenas o que os personagens revelam por meio de seus rostos, e nada mais. Somos forçados a interpretar emoções e imaginar o que está além do quadro.

O “segredo” do título é um vazio e, paradoxalmente, por isso mesmo, extremamente presente. Gilson, o mais velho, trabalha como taxista. Guto, o segundo mais velho, vaga pela cidade à noite. Grazi é a terceira filha, e Tutu o caçula. Eles vivem com a mãe e a tia. É uma família afetuosa, e o amor se manifesta em gestos cotidianos e sensíveis.

A câmera pinta imagens belíssimas: a luz do sol na água, Gilson dirigindo pela cidade ao pôr do sol. Ainda assim, sob essa beleza há uma tensão constante. Há algo escondido, algo não dito, e não sabemos se isso será revelado, ou se será contado através do silêncio.

(Créditos: Reprodução/Berlinale)

Aos poucos, um ruído estranho surge, vindo de um quarto no andar de cima. É inquietante. Algo está prestes a acontecer. A casa começa a tremer. E a argila vermelha começa a escorrer pelas paredes em linhas finas como sangue. A casa parece sangrar por dentro. Uma ferida aberta, incapaz de cicatrizar. Um grande símbolo de uma família que sofre as consequências de não falar sobre o “elefante na sala”. Que nesse caso não é exatamente um elefante.

O quarto de cima torna-se um vazio, assim como a morte do pai. Apenas Tutu, o mais novo, se dirige ao que está ali dentro. Ele está doente, mas conversa com aquilo. Chama de Pretinha, sua amiga. É algo de uma delicadeza imensa. O segredo se torna uma presença.

Será que segredos podem realmente ser trancados?

Com o tempo, o que quer que viva no andar de cima corrói a casa, não de baixo para cima, mas de cima para baixo. A metáfora é impactante. Quando Gilson finalmente abre a porta, tudo desaba. A lama invade a casa e cobre os corpos de todos. Então, de repente, seca. O que era fluido e avassalador se torna sólido. O segredo foi encarado. Mudou de forma.

O deslizamento de lama é um dos símbolos mais poderosos que já vi para representar como os segredos vivem dentro de nós: pesados, dolorosos, destrutivos. Quando a família reconstrói a casa junta, verdades vêm à tona e a cura se torna possível.

“Há coisas que sabemos, mas não queremos saber.” Essa frase abre e fecha o filme. Que escolha impactante.

Nosso Segredo é uma obra de arte delicada: em camadas, simbólica, ousada e profundamente poética. O filme muda constantemente de tom, ritmo e tempo, desafiando o espectador e, ao mesmo tempo, protegendo-o. Abre portas para a imaginação.

Eu não conseguia parar de pensar que quero que todas as pessoas que amo vejam esse filme. Para mim, a narrativa brasileira é única: íntima, generosa e profundamente humana. Assistir a esse filme foi uma honra.

Foi como voltar ao lugar mais seguro que você conhece: como Gilson, deitado nu na cama dos pais, um homem adulto buscando refúgio em um lugar que viverá dentro dele para sempre.

Seraphien Silva dos Santos Schütz

Moro em Berlim e acompanho a Berlinale há 23 anos. Minha formação vem da literatura e das artes visuais, assim como de um profundo interesse pela narrativa visual e pelo cinema. Uma paixão especial pelos documentários molda meu olhar crítico. Também sou cofundadora de uma produtora europeia, Silverfield Productions, dedicada a construir pontes entre o Brasil e a Alemanha. Estou ansiosa para descobrir e acompanhar mais produções brasileiras de destaque nos próximos anos.