Conheça Geoff Keighley, o criador do The Game Awards e do Summer Game Fest

O produtor e apresentador é responsável pelos maiores eventos de anúncios de games da atualidade 

Para quem começou a acompanhar o mundo dos videogames na última década, Geoff Keighley é o “cara do The Game Awards”, o mestre de cerimônias mais conhecido de eventos voltados para anúncios de novos jogos. Mas para os gamers mais velhos, acostumados a assistir desde os anos 2000 conteúdos internacionais sobre jogos no YouTube, ele é uma figura que representa mais algumas coisas.

Keighley construiu sua carreira como jornalista, conduziu grandes entrevistas e programas do segmento, trabalhou como produtor na TV e protagonizou alguns episódios emblemáticos na internet. É alguém inevitável para qualquer fã de games que busca se informar e, consequentemente, uma das pessoas mais importantes dessa indústria.

Primeiros anos de carreira

Geoff Keighley é canadense, nasceu em Toronto, em 1978, filho de executivos da empresa de tecnologia de cinema IMAX. Como seus pais eram membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas — sim, a mesma que organiza o Oscar —, ele passou a demonstrar interesse por eventos de premiações desde cedo.

A relação de Keighley com os games começou ainda na adolescência, quando fundou junto ao irmão caçula um site de notícias e críticas de jogos chamado GameSlice, em 1996. Um pouco antes disso, em 1994, ele trabalhou nos bastidores do Cybermania ‘94, a primeira premiação de games na história a ser filmada e transmitida. Apesar do fracasso de popularidade do evento, esta seria a semente de inspiração para Keighley criar uma premiação de games de alto padrão.

Durante a faculdade, ele se sentiu inspirado pelo programa Behind the Music, do canal de TV VH1, e ofereceu para o veículo Gamespot uma série de artigos sobre bastidores de jogos populares. A empresa topou e o projeto, que envolvia entrevistas e visitas aos estúdios, acabou levando Keighley a conhecer pessoas importantes da indústria de games. Após concluir sua primeira graduação na universidade, na área de negócios, fez ainda um curso de direito. Entretanto, curiosamente, ele não chegou a cursar jornalismo. 

(Créditos: @geoffkeighley/X/Reprodução)

Com grandes reportagens, vêm grandes responsabilidades

No início dos anos 2000, Geoff Keighley já era um jornalista respeitado e bem conhecido pelas reportagens exclusivas que produzia, frequentemente revelando ao público bastidores de difícil acesso. Entre apresentação e produção de programas em vídeo e redação de reportagens em texto, ele teve passagem por grandes empresas de mídia como os canais de TV MTV, Spike e G4, as revistas Entertainment Week e Fortune, e o veículos Gamespot, Kotaku e Gametrailers — sem contar participações como apresentador em eventos do Xbox, PlayStation, da varejista GameStop e da E3.

No entanto, é importante citar o infame episódio apelidado de “Doritosgate”. Ao dar uma entrevista em outubro de 2012, comentando sobre sua experiência ao jogar o muito aguardado Halo 4, Keighley foi filmado entre product placements nada sutis do salgadinho Doritos e do refrigerante Mountain Dew, e ainda dedicou um minuto da conversa para fazer um oferecimento dessa campanha publicitária. 

Por ele se apresentar como jornalista, a situação acabou provocando um grande debate entre jornalistas e gamers sobre ética e conflitos de interesse, uma vez que pressões de patrocinadores poderiam afetar o que é dito em reportagens e resenhas. Geoff foi apelidado de “Papa Doritos” e virou alvo de um meme na internet, em que seu rosto era colocado em montagens de um papa “consagrando” os dois produtos apresentados no vídeo. A controvérsia afetou a percepção de sua imagem na comunidade de jogadores por anos e, mesmo mais de uma década depois, é ocasionalmente ressuscitada por pessoas que querem criticá-lo.

Keighley falou sobre o ocorrido em 2016, dizendo que, apesar de ter sido acusado de “corrupção”, sua intenção era justamente alcançar um resultado oposto: trazer a atenção de marcas não endêmicas para os games, a fim de que os veículos jornalísticos não precisassem mais depender de patrocínio das editoras e, assim, poder falar mais francamente e sem amarras sobre seus jogos. 

(Créditos: The Game Business/Divulgação)

Mesmo não atuando como jornalista há uma década, o ex-repórter fundou um veículo chamado “The Game Business” em 2025. A publicação acontece por meio de newsletters e podcasts e é voltada para negócios (B2B). Porém, o papel de Geoff ali é financiar o projeto, enquanto Chris Dring, um jornalista veterano, cuida da parte editorial.

VGA da Spike TV, o evento que precedeu o The Game Awards 

É impossível falar de Geoff Keighley sem mencionar o The Game Awards, e é impossível falar de TGA sem mencionar o Video Game Awards. Esse evento, que era semelhante ao MTV Movie Awards, foi organizado e transmitido pelo canal Spike TV (atual Paramount Network), uma emissora voltada para o público masculino. O VGA durou entre 2003 e 2013 e tinha como atrativos, até mais do que a revelação dos vencedores, a presença de celebridades e apresentação de números musicais.

Keighley, que desde 2003 já tinha ligações com a Spike, foi chamado para trabalhar na produção do VGA a partir de 2006, chegando a apresentar alguns segmentos da cerimônia. Porém, a emissora foi perdendo seu interesse pela atração nos anos 2010. Rebatizada para “VGX” em 2013, a premiação foi reduzida a um evento bem menor, sem seu palco com músicos e celebridades, gravado em um pequeno estúdio, e encurtado para apenas 1 hora de duração. 

Tudo isso somado à má recepção do público, fez a Spike TV desistir de transmitir a sua premiação de videogames e a oferecer a Geoff Keighley, que tinha se tornado o principal organizador do evento, uma transmissão exclusivamente online, e com mais caráter promocional do que de celebração dos jogos. Ele recusou e o VGA foi descontinuado.

No entanto, Keighley usou suas conexões na indústria para produzir já para o ano seguinte, em 2014, seu próprio evento independente. Com ajuda financeira de parceiros como Sony, Microsoft, Nintendo e outras grandes editoras — além de 1 milhão de dólares do próprio bolso —, ele alugou o auditório The Axis em Las Vegas e inaugurou em 2014 o The Game Awards. 

The Game Awards como projeto principal 

Mais sóbria e focada do que o frenético VGA, a nova premiação fundada por Keighley alcançaria um público muito maior que a audiência da Spike TV já em seu ano de estreia, visto que foi transmitida não é um canal de TV fechado, mas no YouTube e nos consoles de videogame e Steam. A partir do ano seguinte, o TGA passaria a acontecer em auditórios de Los Angeles e refinaria seu formato — com a única exceção sendo a edição de 2020, realizada em um estúdio fechado devido à pandemia de COVID-19. 

(Créditos: The Game Awards/Reprodução)

Não demoraria muito até que a cerimônia se tornasse também um dos momentos mais esperados do ano para veículos de cobertura de videogame e criadores de conteúdo. Em sua situação orgânica de “uma mão lava a outra”, a mídia especializada ganha uma quantidade exorbitante de novidades para noticiar e comentar, enquanto também ajudam a aumentar a popularidade do TGA, incrementando seus números de audiência ano a ano.

A questão é que, diferentemente de eventos de premiação tradicionais, o TGA é independente e não possui contrato de exclusividade com emissoras ou plataformas específicas. Assim, além das transmissões oficiais em múltiplas plataformas (YouTube, Twitch, Tik Tok, Instagram, X, Facebook), há também milhares de streamers e veículos de mídia que reproduzem o evento ao vivo, reagindo e comentando o que acontece com suas comunidades. 

(Créditos: The Game Awards/Reprodução)

Esse fenômeno de todos quererem retransmitir e reagir à cerimônia tem feito o TGA bater recordes de audiência ano após ano. Em 2014, seu ano de estreia, foram 1,9 milhões de espectadores, mas 10 anos depois, em 2024, foram 154 milhões de espectadores. Esse número representa:

  • Quase 8 vezes o público que assistiu ao Oscar em 2024 (19,4 milhões);
  • Quase 23 vezes o público que assistiu ao Primetime Emmy em 2024 (6,87 milhões);
  • Quase 10 vezes o público que assistiu ao Grammy em 2024 (16,9 milhões);

Com o fim da E3, surge o Summer Game Fest 

Antes da pandemia, não havia dúvida sobre qual era o evento de videogames mais relevante da indústria: a Electronic Entertainment Expo. A E3, que foi criada em 1995 para revelar jogos e hardware para varejistas e repórteres, era também o momento mais esperado do ano para o público gamer, uma vez que a feira era antecedida por conferências de anúncios transmitidas pela internet.

Geoff Keighley foi contratado pelo evento para estar à frente da sua programação oficial que era transmitida pela internet. Entre 2017 e 2019, ele produziu e apresentou programas nos quais entrevistava desenvolvedores e discutia detalhes de novidades da E3. 

(Créditos: @Gameslice/YouTube/Reprodução)

Isso mudou quando, em fevereiro de 2020, dados pessoais de participantes e trabalhadores da feira foram vazados em uma falha de segurança. Keighley declarou publicamente não se sentir mais confortável em participar do evento e que, pela primeira vez em 25, não compareceria, rompendo seus laços com a organização.

Um mês depois, o mundo parou com a pandemia de Covid-19 e, basicamente, todos os grandes eventos presenciais ao redor do globo tiveram suas edições de 2020 canceladas, incluindo a E3. Enquanto feiras e convenções não poderiam ser realizadas, ainda existiam meios para fazer apresentações virtuais de anúncios, tal como a Nintendo já fazia há anos com o Nintendo Direct.

Keighley não perdeu tempo e organizou junto a grandes editoras e estúdios seu próprio evento para aquele mesmo ano, o Summer Game Fest. A ideia era não apenas trazer uma apresentação de poucas horas para revelação de trailers e novidades, mas também criar uma programação que se estenderia entre maio e agosto, com múltiplas transmissões feitas por grandes estúdios e coletivos independentes.

O projeto deu certo, mas a E3 retornaria somente para uma morna programação exclusivamente virtual em 2021, cancelando as edições dos dois anos seguintes até se dar por vencida e ser descontinuada de vez. Geoff Keighley, por outro lado, viu ali mais uma oportunidade e expandiu seu Summer Game Fest online para um evento presencial em 2023. Voltada para jornalistas e criadores de conteúdo, a programação chamada de “Play Days” passou a executar — em escala bem menor — o plano central da E3, dando acesso exclusivo por três dias a entrevistas com os desenvolvedores e a games ainda não lançados.

Por ser independente, o SGF não é — e dificilmente se tornará — algo tão massivo como a E3. Além disso, houve uma descentralização dos anúncios de novidades de games, antes guardados pelas editoras para serem revelados na semana da feira, e agora feitos de forma mais diluída, em múltiplas datas e transmissões ao longo do ano. Contudo, o evento de Keighley acaba sendo o dono desse legado e uma oportunidade estratégica para que as empresas divulguem seus jogos no meio do ano.

O grande mestre de cerimônias

Como se não fosse o bastante a influência monumental que o The Game Awards e o Summer Game Fest exercem na indústria, Keighley também apresenta, desde 2019, a Opening Night Live. Semelhante à apresentação do SGF, essa é uma cerimônia ao vivo para anúncios de novidades de jogos, acontecendo sempre na abertura da Gamescom, a maior convenção de games do mundo (em número de participantes).  

Sendo assim, é inevitável que para muitas pessoas Geoff Keighley tenha se tornado a própria face dos anúncios de jogos. Até porque, um dos principais motivos para a audiência expressiva do TGA é a expectativa por novidades e revelações de novos títulos.

(Créditos: @geoffkeighley/X/Reprodução)

É verdade que esses eventos ainda podem melhorar muito, e algumas críticas feitas ao formato e ao excesso de publicidade são bem pertinentes. Porém, ainda que estejamos falando de alguém que usou bem suas conexões e, tal como um bom bacharel em negócios, soube aproveitar as chances de ofertar seus eventos em momentos de demanda, Keighley parece ser, acima de tudo, alguém que genuinamente ama videogames. 

De sua admiração e amizade com o famigerado diretor Hideo Kojima (Metal Gear, Death Stranding) até seu entusiasmo primaveril ao ver um novo Elden Ring ser anunciado em seu evento, ele transparece o fato de que não esqueceu o porquê criou tudo isso. E enquanto esse for o norte que guia as intenções do The Game Awards e do Summer Game Fest, esse legado parece estar em boas mãos.

Como e quando assistir o The Game Awards e o Summer Game Fest

A apresentação do Summer Game Fest acontece no mês de junho, enquanto a cerimônia do The Game Awards ocorre sempre no mês de dezembro. Ambas são transmitidas em várias plataformas nos perfis oficiais do TGA: YouTube, Twitch, X, Tik Tok, Facebook e Instagram. 

Além disso, há milhares de veículos e criadores de conteúdo fazendo a reprodução da cerimônia e reagindo ao vivo — caso você não entenda inglês, é possível encontrar versões com tradução simultânea de terceiros. Na edição de 2025, o TGA acontece em 11 de dezembro, quinta-feira, às 21h30, horário de Brasília. 


Se você gostou do texto, aproveite para ler também nosso artigo sobre o Emmy e nossa lista das principais premiações do cinema e da TV. Não se esqueça também de continuar acompanhando o Criticópolis, seja no site, podcast, YouTube ou na nossa newsletter

Guilherme Dias

Cuida da direção de conteúdo do Criticópolis, elaborando estratégias e gerindo processos editoriais, mas também escrevendo, gravando e contando sobre as coisas legais que joga e assiste. Jornalista especializado em entretenimento e tecnologia desde 2014, mora em São Paulo com sua doguinha Ciri.